Há uma experiência que quem sofre de insônia conhece bem: o corpo está exausto, os olhos ardem, tudo pede descanso e, ainda assim, a mente permanece ali, acesa, incapaz de se desligar. Não é sono leve, nem um simples “pensar demais”. É um estar acordado que a vontade não consegue interromper, por mais que se queira.
Essa sensação não é exclusividade de quem tem insônia clínica, mas ajuda a entender por que o problema é tão mais complexo do que “só dormir cedo”. E ele é extremamente comum: dados do Vigitel 2025, do Ministério da Saúde, mostram que 31,7% dos adultos nas capitais brasileiras relatam pelo menos um sintoma de insônia, com prevalência ainda maior entre mulheres (36,2%, contra 26,2% entre os homens). No mundo, uma revisão sistemática publicada em 2025 na revista Sleep Medicine Reviews estimou que 16,2% dos adultos (mais de 852 milhões de pessoas) têm insônia clinicamente relevante.
Dr. Gustavo Barros: psiquiatra com atuação em distúrbios do sono
O Dr. Gustavo Barros é médico psiquiatra (CRM-SP: 231438; RQE: 136025), com residência médica pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Atual mestrando em Filosofia, Saúde Mental e Psicologia pela University of Birmingham, na Inglaterra. Possui anos de experiência atuando em saúde mental, com participação em programas de aperfeiçoamento profissional que incluem a University of Southern California, MercyOne Des Moines Medical Center e University of Texas.
Autor de capítulos de livros, como “Transtornos de Humor 1 – Transtorno Bipolar” e “Transtornos de Humor 2 – Transtornos Depressivos”, presentes no livro ‘Condutas em Psiquiatria’, publicado pela editora Manole. Além de artigos científicos, como “Prevalência de Sintomas de Ansiedade e Depressão em Pacientes Cardiopatas”, publicado na Revista Brasileira de Neurologia e Psiquiatria.
A experiência clínica, associada ao rigor científico, contribuem para um cuidado assertivo e humano.

Psiquiatra Online: atendimentos para todo o Brasil
Os atendimentos realizados pelo Dr. Gustavo Barros são por Telemedicina (Online), para pacientes em todo o Brasil, através da plataforma Doctoralia. Documentos e receitas são emitidos digitalmente, com a mesma validade de documentos impressos.
Horário de Atendimento: 08h às 18h, conforme disponibilidade da agenda.
WhatsApp: (11) 93293-5318
O acompanhamento com o Dr. Gustavo Barros inclui avaliação psiquiátrica, investigação médica/diagnóstica (com solicitação de exames e encaminhamentos, quando necessário), construção conjunta de plano terapêutico e emissão de documentos médicos, que podem incluir atestados/laudos.
Avaliações dos pacientes podem ser verificadas no perfil profissional do Doctoralia.
Por que dormir mal se tornou tão comum?
Vários fatores contemporâneos convergem para dificultar o sono de boa qualidade:
- – Exposição à luz de telas até pouco antes de deitar-se, que interfere na produção natural de melatonina
- – Jornadas de trabalho longas ou irregulares, incluindo trabalho noturno ou por escala
- – Consumo de cafeína e álcool em horários próximos ao sono
- – Níveis elevados de estresse e ansiedade, mantidos ao longo do dia sem espaço adequado de descompressão
- – Uso de smartphones e redes sociais na cama, prolongando o tempo de estimulação mental antes de dormir
O mesmo levantamento do Vigitel mostrou que 20,2% dos adultos nas capitais brasileiras dormem menos de seis horas por noite — uma duração insuficiente para a maioria dos adultos, cuja necessidade fisiológica gira em torno de sete a nove horas. A privação de sono é ainda mais acentuada entre pessoas com 65 anos ou mais (23,1%) e entre mulheres com menor escolaridade, chegando a 29% nesse grupo — um lembrete de que a qualidade do sono também reflete desigualdades sociais, e não apenas escolhas individuais de estilo de vida.

Qual a diferença entre uma noite mal dormida e insônia?
Praticamente todo mundo já teve uma noite ruim antes de uma prova ou uma viagem importante: isso é insônia aguda, geralmente ligada a um estressor específico e que desaparece quando a situação se resolve. A insônia se torna um transtorno quando passa a ser crônica: persistente, recorrente, e não mais explicada por um gatilho pontual.
Uma diferença prática costuma ajudar pacientes a se situar: na insônia aguda, dormir mal é a exceção; na insônia crônica, dormir mal se torna a regra, e a pessoa passa a temer a própria hora de deitar, antecipando a dificuldade antes mesmo dela acontecer.
Quais são os critérios diagnósticos da insônia, segundo o DSM-5?
O Transtorno de Insônia é definido pelo DSM-5-TR pela presença de:
- Insatisfação com a quantidade ou qualidade do sono, associada a pelo menos um dos seguintes: dificuldade para iniciar o sono, dificuldade para manter o sono (despertares frequentes ou dificuldade de voltar a dormir) ou despertar precoce com incapacidade de retomar o sono
- Sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo em áreas importantes do funcionamento
- Dificuldade de sono presente pelo menos três noites por semana
- Duração mínima de três meses
- Dificuldade de sono mesmo havendo oportunidade adequada para dormir
- Ausência de outro transtorno do sono, uso de substância ou condição médica que explique melhor o quadro
Vale notar que o critério “oportunidade adequada para dormir” é importante: alguém que dorme pouco porque trabalha em três empregos não necessariamente tem insônia — tem, isso sim, um problema de tempo disponível para dormir, o que é uma questão diferente, ainda que possa evoluir para insônia real com o tempo.
Por que, quanto mais eu tento dormir, mais acordado eu fico?
Esse paradoxo tem uma explicação tanto neurobiológica quanto, curiosamente, filosófica. Do ponto de vista clínico, ele é conhecido como hiperexcitação (hyperarousal): pacientes com insônia crônica frequentemente apresentam um sistema nervoso mais ativado, tanto fisiológica quanto cognitivamente, o que torna o esforço consciente para dormir contraproducente — a própria tentativa de controlar o sono gera mais despertar, não menos.
O filósofo lituano-francês Emmanuel Levinas dedicou algumas de suas páginas mais originais exatamente a esse fenômeno. Em sua obra “Da Existência ao Existente”, Levinas descreve a insônia não apenas como falta de sono, mas como a experiência de um “há” — uma existência impessoal, anônima, que continua presente mesmo quando o eu tenta se retirar dela. Na insônia, segundo o filósofo, não é que “eu” esteja pensando e por isso não durmo: é o próprio despertar que persiste, quase sem sujeito, como um fundo de existência que a consciência não consegue desligar por vontade própria.
Essa descrição, feita décadas antes dos estudos modernos sobre hiperexcitação, capta com precisão algo que pacientes com insônia relatam constantemente: a sensação de que a vigília não é uma escolha ativa, mas algo que simplesmente continua acontecendo, à revelia da vontade. Para Levinas, tentar dormir à força é, em certo sentido, uma contradição; dormir supõe justamente abandonar o controle consciente, algo que a própria tentativa deliberada de dormir impede. Essa observação filosófica antecipa, por outro caminho, o que a psicologia moderna chama de “esforço de sono” (sleep effort): quanto mais deliberada e ansiosa é a tentativa de dormir, mais ela mantém o sistema em estado de alerta, exatamente o oposto do que o sono requer.
Quais fatores mantêm a insônia mesmo depois que a causa inicial já passou?
Um dos achados mais importantes da medicina do sono é que a insônia crônica raramente é mantida pela causa que a originou. Um período de estresse agudo pode iniciar o problema, mas alguns comportamentos e crenças acabam por perpetuá-lo, mesmo depois que o estressor original desaparece:
- – Tempo excessivo na cama tentando dormir, o que associa a cama, no cérebro, a um lugar de frustração em vez de descanso
- – Cochilos diurnos compensatórios, que reduzem a pressão natural de sono à noite
- – Checagem repetida de horários durante a noite, que aumenta a ansiedade sobre “quanto tempo ainda falta para dormir”
- – Crenças catastróficas sobre as consequências de dormir mal, que aumentam a ativação fisiológica no momento de deitar
- – Uso irregular de substâncias (álcool, cafeína, alguns medicamentos) como tentativa de compensar noites ruins anteriores
Esse ciclo explica por que muitas pessoas continuam com insônia mesmo depois que a situação de vida que a desencadeou já foi resolvida — o problema, nesse ponto, já não depende mais da causa original, mas dos próprios hábitos e crenças que se formaram ao redor da dificuldade de dormir.
Remédio para dormir resolve o problema da insônia?
Nem sempre — e raramente sozinho. Medicações indutoras do sono podem ter papel importante em situações específicas, sobretudo no manejo inicial de quadros agudos ou em conjunto com outras abordagens, mas apresentam limitações relevantes: tolerância com o uso prolongado, risco de dependência em algumas classes, e o fato de não corrigirem os mecanismos comportamentais e cognitivos que mantêm a insônia crônica ativa.
Por isso, diretrizes internacionais de medicina do sono recomendam a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) como abordagem de primeira linha para insônia crônica, reservando a medicação para uso pontual ou como complemento, e não como solução isolada de longo prazo. Essa recomendação surpreende muitos pacientes, acostumados a associar insônia diretamente a “remédio para dormir”, mas reflete o entendimento atual de que tratar apenas o sintoma noturno, sem abordar os mecanismos que mantêm a hiperexcitação ao longo do dia, tende a produzir alívio temporário e recaída frequente.

Quais soluções realmente funcionam para melhora do sono?
As estratégias com melhor evidência científica para insônia crônica incluem:
- – Controle de estímulos: usar a cama apenas para dormir (não para trabalhar, assistir telas ou ficar acordado revirando na cama), levantando-se se não conseguir dormir em cerca de 20 minutos
- – Restrição de sono, técnica paradoxal supervisionada que reduz temporariamente o tempo na cama para aumentar a eficiência e a pressão natural do sono
- – Reestruturação cognitiva, voltada a identificar e modificar crenças ansiosas sobre o sono e suas consequências
- – Higiene do sono, incluindo horários regulares, ambiente escuro e silencioso, e redução de cafeína e telas à noite
- – Técnicas de relaxamento, como respiração diafragmática, úteis para reduzir a ativação fisiológica antes de dormir
- – Medicamentos: que atuam na causa base na insônia e/ou, pontualmente, com efeito sedativo.
Considerações finais
A insônia raramente se resolve apenas com “força de vontade” ou tentativas isoladas de dormir mais cedo. Muitas vezes, é justamente o esforço consciente para dormir que mantém o problema ativo. Reconhecer os sinais de um quadro crônico, e buscar avaliação especializada em vez de recorrer apenas à automedicação, é o caminho mais seguro para recuperar não apenas as horas de sono, mas a relação tranquila com a própria hora de deitar; permitindo, como diria Levinas, que a vigília finalmente ceda lugar ao repouso, em vez de se impor como um fundo constante e indesejado de existência.
Referências:
Ministério da Saúde — Vigitel 2025; Sleep Medicine Reviews — revisão sistemática sobre prevalência global de insônia (2025); Associação Brasileira do Sono (ABS); American Psychiatric Association — DSM-5-TR (2022); Levinas, E. — “Da Existência ao Existente” (1947).